Washington — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) embarca nesta quarta-feira (6) para Washington, onde se reúne na Casa Branca, na quinta (7), com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O encontro é visto por fontes da diplomacia brasileira como um passo para normalizar as relações comerciais após um período de incertezas e tarifas, e deve priorizar, além da economia, a cooperação no combate ao crime organizado — tema que o Brasil pretende colocar no centro da agenda.
Contexto e objetivos da visita
- A viagem decorre de um processo de reaproximação iniciado em 26 de janeiro de 2026, quando Lula e Trump conversaram por cerca de 50 minutos por telefone. O presidente brasileiro chegou a sinalizar uma ida a Washington em março para um encontro “olho no olho”, mas a escalada da guerra no Oriente Médio retardou a definição da agenda.
- Desde então, novos atritos surgiram: episódios como o cancelamento do visto do assessor Darren Beattie e os ruídos em torno da prisão e posterior soltura do deputado Alexandre Ramagem aumentaram a complexidade do ambiente político-diplomático.
- Mesmo assim, auxiliares de Lula têm frisado que a reunião tende a ser “mais um ponto de partida do que de chegada” na construção de compromissos concretos.
Comércio: Seção 301 e sinais de distensão
- No mês passado, equipes técnicas dos dois governos se reuniram em Washington para discutir a investigação aberta pelos EUA contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 — um procedimento administrativo unilateral dos Estados Unidos, sem caráter judicial e distinto dos painéis da Organização Mundial do Comércio.
- A iniciativa americana alega práticas econômicas desleais do Brasil em temas como o PIX e o etanol, além de medidas históricas que restringiriam o acesso de exportadores dos EUA ao mercado brasileiro.
- Lula tem repetido que “ninguém” vai impor mudanças no PIX, sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central. Apesar das declarações públicas duras vindas de Washington, a orientação em Brasília é negociar e buscar consenso para evitar uma escalada tarifária. Na visão desta reportagem, há espaço para distensão: a retomada do diálogo de alto nível e o canal técnico já aberto sugerem que ambos os lados desejam administrar diferenças sem romper fluxos comerciais.
Segurança: cooperação contra o crime organizado
- Em diálogo com Trump, em dezembro passado, Lula propôs uma cooperação bilateral contra o crime organizado, com foco em ações conjuntas de combate à lavagem de dinheiro.
- Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o governo Trump apresentou contrapartidas que o Brasil rejeitou: receber, em prisões brasileiras, estrangeiros capturados nos EUA; além de cobrar um plano para desarticular PCC, Comando Vermelho, Hezbollah e organizações criminosas chinesas em território brasileiro. Também há discussões em Washington para classificar PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas — classificação que, segundo interpretação das regras internas americanas, poderia embasar medidas unilaterais, inclusive de força.
- Em abril, mesmo antes de fechada a data do encontro presidencial, o governo brasileiro anunciou um acordo operacional entre a Receita Federal e a agência de fronteiras dos EUA (CBP) para repressão a ilícitos transnacionais; a intenção inicial era divulgar a parceria após a reunião de cúpula.
- Para sustentar a pauta, o Planalto pretende detalhar na próxima semana o programa Brasil Contra o Crime Organizado, com ações integradas de forças federais e estaduais para retomar áreas dominadas por facções e endurecer regras no sistema prisional. A proposta será apresentada ao governo americano como evidência de esforço doméstico consistente.
- Avaliação do Dado Capital: a cooperação técnica e financeira tende a avançar; já exigências de extraterritorialidade ou medidas que afrontem soberania e a legislação brasileira devem encontrar barreiras firmes em Brasília. O governo aposta em resultados práticos no rastreamento de fluxos financeiros e no controle de fronteiras, áreas em que há ganhos claros para ambos.
Minerais críticos e terras raras: soberania e tecnologia no centro
- O governo brasileiro quer que a exploração de minerais críticos e terras raras ocorra sob controle nacional, com parcerias que assegurem transferência de tecnologia, desenvolvimento industrial e soberania sobre os recursos.
- Brasília sinalizou que não pretende aderir à aliança proposta pelos EUA para o setor e deve priorizar acordos bilaterais com diferentes países, avaliando que Washington busca influenciar regras do comércio global desses insumos — hoje com cadeias fortemente concentradas na Ásia.
- Segundo avaliação oficial brasileira, o país detém uma das maiores reservas desses minerais e figura entre os maiores detentores de terras raras do mundo. Esse potencial torna o tema sensível e estratégico na mesa com os EUA.
- O acordo firmado por Goiás com os Estados Unidos sobre exploração de minerais críticos deve entrar nas conversas; a avaliação no governo federal é que não tem validade jurídica. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio reforça que o subsolo pertence à União, responsável por regular a atividade mineral e firmar acordos internacionais — o que inviabiliza iniciativas isoladas de estados.
- Opinião: este é um dos pontos de maior atrito potencial. O Brasil quer atrair capital e tecnologia sem abrir mão de governança sobre cadeias de valor; os EUA, por sua vez, buscam reduzir dependências externas. Um entendimento só avançará se vier atrelado a compromissos robustos de industrialização local.
Dossiê regional e geopolítica
- Além de comércio, segurança e minerais, a pauta inclui Venezuela, Cuba e a dinâmica política na América Latina, bem como a guerra no Oriente Médio. O Planalto tenta equilibrar posições públicas com pragmatismo bilateral, evitando que divergências geopolíticas contaminem a agenda econômica e de segurança.
O que observar a partir de agora
- Quinta (7): encontro na Casa Branca, com possibilidade de anúncio de diretrizes para grupos de trabalho em comércio e segurança.
- Próxima semana: lançamento do programa Brasil Contra o Crime Organizado, que deverá ser apresentado como pilar doméstico da cooperação com os EUA.
- Comércio: expectativa de um cronograma para a investigação da Seção 301 e sinais concretos de descompressão tarifária.
Em síntese, a visita de Lula a Washington tem caráter eminentemente pragmático: destravar a agenda comercial, enquadrar diferenças sensíveis — especialmente em minerais críticos — e capitalizar uma pauta de segurança com resultados mensuráveis. Se o encontro não produzir acordos de grande porte de imediato, tende ao menos a estabelecer o roteiro e a governança para que eles se materializem nos próximos meses. Para o empresariado, qualquer sinal de previsibilidade na Seção 301 e de cooperação efetiva contra ilícitos já seria um ganho imediato.


