Brasil ganha ONG para apoiar vítimas de plataformas digitais e proteger denunciantes
A ex-diretora de políticas públicas do WhatsApp no Brasil, Daniela da Silva, criou a ONG CTRL+Z para receber denúncias contra big techs e oferecer apoio jurídico gratuito a usuários e funcionários. A iniciativa, em fase de testes, reúne relatos de bloqueio e encerramento de contas, vazamento de dados, perfis falsos e perda de acesso — além de um canal seguro e anônimo (#VazaBigTech) para que empregados dessas empresas revelem práticas de interesse público. Em entrevista ao g1, Daniela afirmou que o objetivo é incentivar uma cultura de responsabilização das plataformas e ampliar o acesso à Justiça em casos que atingem diretamente a vida digital e econômica dos usuários.
Como funciona a CTRL+Z
- Denúncias e apoio jurídico: usuários que enfrentam problemas em plataformas como Instagram, Facebook, Google e X podem registrar casos no site oficial (https://ctrlz.org.br/add/) e contar com o suporte de advogados sem custo. Segundo as responsáveis, o atendimento pode demorar nesta fase inicial.
- Queixas recorrentes: encerramento de conta sem aviso, perfis falsos, vazamento de dados pessoais, bloqueios temporários injustificados e perda de acesso após hackeamento estão entre os relatos previstos.
- Segurança e privacidade: a ONG afirma não utilizar formulários de big techs (como Google Forms e Microsoft Forms) para evitar que as próprias empresas tenham acesso ao conteúdo das denúncias. O sistema adota criptografia de ponta a ponta.
- Caso ilustrativo: Daniela citou o exemplo de uma conta do Google, mantida havia 20 anos, suspensa equivocadamente sob suspeita de uso de imagem de exploração infantil. Por causa do login único, a suspensão travou o acesso a múltiplos serviços, com impacto financeiro. Após a atuação da ONG, o acesso foi restabelecido.
#VazaBigTech: denúncias anônimas com foco em interesse público
A CTRL+Z criou o programa #VazaBigTech para incentivar funcionários de grandes empresas de tecnologia a relatar decisões internas consideradas arbitrárias ou negligências com potencial interesse público. Embora o site funcione em navegadores comuns, o nível máximo de segurança e anonimato é garantido com o uso do Tor, que dificulta o rastreamento na internet. “A ferramenta permite o envio de denúncias anônimas. Nesse caso, ‘nem a gente tem como saber quem é’”, afirma a jornalista e cofundadora Tatiana Dias.
Quem está por trás e por que a ONG surgiu
- Saída da Meta: Daniela da Silva deixou a empresa no início de 2025, após Mark Zuckerberg anunciar, em vídeo, o fim do programa de checagem de fatos nos EUA e uma agenda de pressão contra regulações consideradas “censura” — movimento que, segundo ela, surpreendeu equipes internas e foi comunicado quase simultaneamente ao público. A indignação levou à demissão, anunciada em publicação no LinkedIn.
- Objetivo declarado: “Criar uma cultura de responsabilização das big techs”, disse Daniela ao g1, ao destacar que a ONG já busca parcerias e montou uma equipe de advogados. “E já surgiram ofertas. Começamos a receber várias mensagens de escritórios de advocacia interessados em fechar parceria.”
- Liderança: a ONG é capitaneada por Daniela da Silva e pela jornalista Tatiana Dias.
O que são big techs e o pano de fundo regulatório
Big techs são grandes empresas de tecnologia com atuação global e milhões de usuários, como Apple, Amazon, Google, Microsoft e Meta (dona de Facebook, Instagram e WhatsApp). No Brasil, a proteção de direitos online é amparada por marcos como o Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014), que estabelece princípios de uso, direitos, deveres e diretrizes de atuação do Estado, incluindo privacidade e responsabilidade de provedores. Embora esse arcabouço e a legislação de proteção de dados ofereçam instrumentos de defesa, vítimas frequentemente relatam dificuldades para acionar canais de suporte e reverter decisões automatizadas — lacuna que a CTRL+Z pretende ajudar a preencher. Fonte: Wikipedia – Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014).
Análise Dado Capital: onde a CTRL+Z pode fazer diferença
- Acesso à Justiça digital: ao oferecer suporte jurídico gratuito, a CTRL+Z ataca um ponto sensível do ecossistema — o descompasso entre o poder de decisão das plataformas e a capacidade do usuário comum de contestar bloqueios, perdas de acesso e vazamentos de dados.
- Incentivo à transparência: o #VazaBigTech pode ampliar o escrutínio sobre políticas internas, moderação de conteúdo e respostas a incidentes, especialmente quando protocolos internos permanecem opacos ao público e aos reguladores.
- Riscos e limites: por estar em fase de testes, a ONG pode enfrentar gargalos de demanda e prazos. Seu impacto dependerá da rede de parceiros jurídicos, da capacidade técnica de preservação de evidências e da articulação com órgãos públicos competentes.
Como denunciar
- Acesse: https://ctrlz.org.br/add/
- Informe o caso: encerramento de conta sem aviso, perfil falso, vazamento de dados, bloqueios injustificados ou perda de acesso (inclusive por hackeamento).
- Para funcionários: envie relatos e documentos via #VazaBigTech; para máximo anonimato, utilize o navegador Tor.
Encerramento
A CTRL+Z estreia em um momento de tensão entre plataformas e sociedade, com decisões corporativas que afetam diretamente direitos digitais e a economia de milhões de usuários. Ao combinar suporte jurídico gratuito, infraestrutura de segurança e um canal anônimo para denúncias de interesse público, a ONG se coloca como peça relevante no ecossistema de responsabilização. Se consolidada, pode pressionar big techs por maior previsibilidade, transparência e reparação — pilares essenciais para um mercado digital mais justo. A Dado Capital seguirá acompanhando a evolução da iniciativa, suas parcerias e os resultados práticos dos casos atendidos.


