Teerã — “Guerra não é videogame.” É assim que o embaixador do Brasil em Teerã, André Veras Guimarães, 59, resume as primeiras semanas do conflito no Irã, marcado por bombardeios diários atribuídos aos Estados Unidos e a Israel contra alvos na capital e em outras regiões do país. Morador do último andar de um prédio residencial, o diplomata relata madrugadas interrompidas por estrondos, paredes que tremem e o clarão de explosões do lado de fora. Segundo estimativa mais recente do governo iraniano, mais de 3,5 mil iranianos já morreram. Uma trégua de duas semanas, anunciada em 7 de abril e condicionada à abertura do Estreito de Ormuz, diminuiu o barulho das bombas, mas não a apreensão: “Há expectativa de retomada das hostilidades”, diz Veras, após o fracasso da rodada de negociações entre Washington e Teerã em Islamabad, no Paquistão.
Relatos de campo e o custo humano
- “Guerra não é videogame”, repete o embaixador, ao criticar a retórica de ataques “cirúrgicos” que, na prática, têm atingido estruturas civis. “Uma autoridade iraniana morta em um bombardeio leva consigo mais 15 pessoas, outros tantos feridos e muitas estruturas destruídas.” Ele rejeita o eufemismo “dano colateral” como forma de suavizar impactos e “humanizar a guerra”.
- Veras cita a Escola Primária Shajareh Tayyebeh, em Minab (província de Hormozgan), destruída por um míssil no primeiro dia da guerra, com 175 mortos — a maioria, meninas. Questionado, o presidente dos EUA, Donald Trump, respondeu: “Eu não sei nada sobre isso.” Minab, segunda maior cidade de Hormozgan, fica próxima ao Golfo de Omã, região estratégica onde se cruzam interesses militares e de energia.
- O embaixador descreve “apreensão, expectativa e medo” entre os iranianos, sentimento agravado por ameaças públicas de Trump, que, às vésperas da trégua, declarou em sua rede Truth Social: “Uma civilização inteira morrerá hoje à noite”. Para Veras, quando um chefe de Estado usa esse tipo de linguagem, a população visada acredita estar “sob ameaça de crime de guerra ou genocídio”.
Balanço de destruição
- Verificação independente do The New York Times identificou danos a 22 escolas e 17 unidades de saúde desde o início do conflito, com base em imagens de satélite de alta resolução e checagem de vídeos de mídia estatal e redes sociais. Os estragos tendem a ser maiores.
- A Sociedade do Crescente Vermelho Iraniano afirmou, em 2 de abril, que ao menos 763 escolas e 316 unidades de saúde foram danificadas ou destruídas desde o início dos ataques deste ano. Os números são consistentes com o padrão de danos relatado localmente e ajudam a dimensionar o impacto civil da campanha aérea.
Trégua frágil e negociação travada
- Os bombardeios foram interrompidos em 7 de abril por um cessar-fogo de duas semanas, condicionado à abertura do Estreito de Ormuz. Embora Teerã esteja relativamente calmo desde então, a população teme a retomada da ofensiva após o insucesso das tratativas em Islamabad no último fim de semana.
- Dias antes da trégua, Trump havia ameaçado reiteradamente destruir pontes e usinas elétricas do Irã. Segundo Veras, a retórica de aniquilação provocou um “choque muito grande” inclusive entre iranianos que, a princípio, esperavam mudanças políticas: “Desconsidera uma história de 4 mil anos da civilização persa-iraniana.”
Ormuz, energia e risco sistêmico
- O Estreito de Ormuz é o gargalo mais importante do comércio global de combustíveis: cerca de um quarto do petróleo transportado por mar e em torno de um quinto do gás natural liquefeito (GNL) passam por ali. Qualquer interrupção sustentada tende a pressionar cotações de petróleo, fretes e prêmios de seguro marítimo, com efeitos em cadeia sobre inflação e crescimento global.
- Segundo Veras, o anúncio dos EUA de um suposto bloqueio a portos iranianos no Golfo Pérsico não produziu impacto visível na rotina: “Desde 28 de fevereiro, os iranianos agem com altivez e força. Em nenhum momento ficaram desabastecidos os supermercados; quando faltou energia em alguma região específica, foi rapidamente resolvido.” O histórico de sanções teria fomentado resiliência e alguma autossuficiência em setores-chave.
Alvos militares e a Guarda Revolucionária
Os ataques têm priorizado estruturas do Estado iraniano, como instalações da Guarda Revolucionária (IRGC) e forças policiais. A IRGC, braço multiforças criado após a Revolução de 1979, controla programas de mísseis, opera forças terrestres, navais e aeroespaciais, e mantém a unidade Quds, voltada a operações externas. Esse papel central torna suas bases e depósitos de armamentos alvos preferenciais — e aumenta o risco de danos colaterais quando estão próximos a áreas urbanas.
Clima político interno
- Veras relata aumento de manifestações noturnas pró-governo. “As divergências que existem [no Irã] são ultrapassadas pelas ameaças externas, especialmente as que põem em risco a própria existência do Estado. A reação natural é o país se juntar na sua própria defesa.”
- Essa dinâmica é típica de contextos em que pressões militares externas reforçam o nacionalismo e dificultam fissuras políticas internas — um dado relevante para calibrar expectativas sobre mudanças rápidas no regime.
Brasileiros no Irã
- Antes de 28 de fevereiro, havia cerca de 180 brasileiros no país; entre 60 e 70 saíram por via terrestre sem dificuldades, segundo o embaixador. As fronteiras com Turquia, Armênia, Azerbaijão, Afeganistão e Paquistão permanecem abertas.
- Veras foi nomeado em 6 de junho de 2025, sete dias antes do início da chamada “Guerra dos 12 Dias”, quando forças norte-americanas e israelenses atingiram instalações nucleares e militares iranianas. Ele chegou a Teerã ainda naquele mês.
Opinião Dado Capital
O relato do embaixador, corroborado por levantamentos independentes sobre danos a infraestrutura civil, contrasta com a narrativa de ataques “cirúrgicos”. A escalada retórica — em especial quando inclui ameaças existenciais — eleva a percepção de risco e reduz o espaço político para concessões rápidas. Do ponto de vista econômico, a condição imposta à trégua (abertura de Ormuz) é o coração do problema: se a calmaria não se sustentar e houver perturbação relevante do fluxo pelo estreito, o choque de oferta no petróleo e no GNL voltará ao centro do palco, com repercussões diretas em preços de energia, prêmios de risco marítimo e inflação global. O momento pede monitoramento fino de cronogramas da trégua, do tráfego em Ormuz e de sinais nas negociações — variáveis que, combinadas, definirão o prêmio de risco da região nas próximas semanas.
Encerramento
O testemunho de André Veras Guimarães dá dimensão humana a um conflito de alta complexidade geopolítica, em que a retórica e a logística militar se entrelaçam com cadeias globais de energia. A trégua em vigor oferece um hiato crítico: se evoluir para um compromisso mais duradouro, alivia o front humanitário e o risco sistêmico em Ormuz; se ruir, tende a aprofundar o custo civil e reacender a volatilidade nos mercados. Nas próximas semanas, o comportamento do tráfego marítimo no estreito e o resultado de novas tentativas de negociação serão os indicadores decisivos a observar.

