O avanço das facções criminosas pelo interior do Brasil – O Assunto #1711
A interiorização da violência no Brasil deixou de ser tendência para se tornar realidade mensurável: enquanto grandes capitais reduziram fortemente os homicídios na última década, o crime organizado avança sobre cidades médias e pequenas. Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em parceria com o Ipea, indicam que metrópoles como Fortaleza, São Luís e Goiânia registraram quedas superiores a 60% nas taxas de homicídio entre 2013 e 2023; simultaneamente, municípios do interior passaram a concentrar episódios de violência antes típicos das grandes cidades. O fenômeno é retratado no documentário do Globoplay “Territórios – Sob o Domínio do Crime” e é tema do episódio #1711 do podcast O Assunto, com a diretora-executiva do FBSP, Samira Bueno, e o jornalista Paulo Renato Soares.
Capitais em queda, interior em alerta
- Segundo FBSP e Ipea, a última década combinou duas curvas: declínio expressivo dos homicídios em centros urbanos que internalizaram políticas de prevenção e investigação, e ascensão da violência letal em áreas do interior, especialmente nas rotas logísticas do narcotráfico.
- Cidades médias e pequenas se tornaram estratégicas para facções pela proximidade com rodovias e corredores de escoamento. O reposicionamento territorial leva disputas a locais com menor capacidade institucional, pressionando polícias, prefeituras e judiciário locais.
Como operam as facções no novo mapa
O documentário “Territórios – Sob o Domínio do Crime” evidencia que o crime organizado atua hoje de forma articulada em escala nacional e transnacional. A estratégia combina:
- Domínio armado de territórios e imposição de “regras” locais;
- Influência no sistema prisional, vetor de recrutamento e comando;
- Penetração em segmentos da economia formal e práticas de corrupção;
- Uso intensivo de rotas rodoviárias e fluviais, com capilaridade interiorana.
“Escolhemos o nome ‘Territórios’ porque este é o ponto: é grave a dominação armada de territórios que acontece muito no Rio de Janeiro e está se espalhando por tudo quanto é lugar. Isso subjuga milhões de pessoas. Eles impõem regras, que incluem consumir produtos e serviços impostos pelos traficantes”, afirma o repórter Paulo Renato Soares, um dos autores do filme.
Casos emblemáticos
- Rio Claro (SP): Com cerca de 200 mil habitantes e cortada por importantes eixos rodoviários, tornou-se ponto de disputa entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). A localização estratégica favorece o trânsito de drogas e armas e atrai a competição por “praças” antes periféricas ao grande mercado.
- Juazeiro (BA): A aproximadamente 500 km de Salvador, registra taxa de homicídios de 76,2 por 100 mil habitantes — cerca de três vezes a média nacional, evidenciando a pressão violenta sobre polos regionais do interior nordestino.
- Amazônia Legal: Em uma região formada por nove estados e com vasta malha fluvial, a presença de facções já alcança 45% dos municípios, articulando-se a cadeias logísticas do narcotráfico e a economias ilícitas de fronteira.
Segurança pública, políticas sociais e eleições
Para Samira Bueno (FBSP), o avanço do crime organizado exige ir além da segurança pública tradicional: habitação, transporte, oferta de serviços e regulação econômica local precisam ser pensados como parte da contenção da dominação territorial criminosa. O impacto também é político-eleitoral. No Rio de Janeiro, o Tribunal Regional Eleitoral montou força-tarefa para mitigar a influência do crime nas eleições, sinalizando que a disputa por “territórios” chega às urnas e impõe novos protocolos de integridade.
Opinião
Os dados e relatos de campo compõem uma mesma fotografia: quando o Estado ocupa as capitais com políticas de prevenção, investigação e presença institucional, o crime reconfigura rotas e pressiona áreas com menor densidade estatal. Não basta replicar no interior o policiamento ostensivo das metrópoles. O contraponto efetivo passa por:
- Inteligência integrada entre estados, com foco em rotas e finanças do crime;
- Governança do sistema prisional para impedir comando à distância;
- Políticas urbanas e sociais que reduzam a dependência econômica de mercados ilícitos;
- Proteção do processo eleitoral em áreas sob risco de coação e captura territorial.
Em suma, segurança, desenvolvimento local e integridade institucional precisam caminhar juntos. Sem isso, a interiorização tende a consolidar “zonas cinzentas” onde a lei que vale é a do fuzil — e onde a violência letal volta a crescer.
Serviço
O Assunto #1711 — “O avanço das facções criminosas pelo interior do Brasil” — aprofunda o tema com Samira Bueno (FBSP) e Paulo Renato Soares (TV Globo), um dos repórteres de “Territórios – Sob o Domínio do Crime” (Globoplay). O podcast diário do g1 está disponível em todas as plataformas de áudio e no YouTube, onde acumula mais de 168 milhões de downloads e 14,2 milhões de visualizações desde 2019, segundo a própria produção.
Fontes citadas
- Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Ipea
- Documentário “Territórios – Sob o Domínio do Crime” (Globoplay)
- Informações do g1 e do TRE-RJ


