Em meio a tensão comercial e disputa por padrões tecnológicos de pagamento, o PIX deve dominar a pauta do encontro desta quinta-feira (7) entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. O sistema brasileiro de pagamentos instantâneos entrou na mira do governo dos Estados Unidos após a abertura, em julho de 2025, de uma investigação comercial solicitada por Trump. Embora o documento oficial não cite o PIX nominalmente, faz referência a “serviços de comércio digital e pagamento eletrônico” oferecidos pelo Estado brasileiro — categoria na qual o PIX é o único sistema governamental. Em abril deste ano, um relatório da Casa Branca voltou a destacar o PIX como fator de desvantagem competitiva para redes como Visa e Mastercard, segundo reportagens do g1. Especialistas ouvidos pelas mesmas publicações afirmam que não há razões técnicas ou econômicas consistentes para questionar o serviço; a ofensiva seria motivada sobretudo por competição e geopolítica.
O que está em jogo
- Investigação nos EUA: instaurada em julho de 2025, com foco em serviços digitais e de pagamento eletrônico providos pelo Estado brasileiro. O PIX, operado pelo Banco Central (BC), se enquadra diretamente nesse escopo.
- Pressão sobre redes privadas: relatório da Casa Branca, em abril de 2026, classifica o PIX como fonte de desvantagem às grandes bandeiras de cartão (Visa e Mastercard), reforçando a tese de conflito concorrencial.
Concorrência com cartões e big techs
Para Jorge Ferreira dos Santos Filho, economista e professor da ESPM, o PIX — gratuito para pessoas físicas e de baixo custo para empresas — representa concorrência direta às operadoras de cartão norte-americanas, que dependem de taxas de transação. Esse choque atinge também big techs com ofertas de pagamento, como o Google. Ralf Germer, CEO da PagBrasil, define o PIX como tecnologia avançada que promove concorrência saudável e diz não ver conflito direto com interesses dos EUA a ponto de justificar a investigação. “Além disso, houve tempo suficiente para que se adaptassem e desenvolvessem soluções capazes de competir com as vantagens do PIX, seja em custo, experiência do usuário ou do comércio”, afirma.
PIX Internacional, BRICS e o dólar
O BC trabalha na evolução do PIX Internacional. Hoje, o uso fora do Brasil é parcial e restrito a estabelecimentos específicos em localidades como Miami, Orlando, Lisboa e outras. A ambição é interligar sistemas de pagamentos instantâneos para transações transfronteiriças. Especialistas apontam que, se o PIX se consolidar como meio de pagamento entre países do BRICS, isso pode incomodar Washington por reduzir a dependência do dólar no comércio. Durante o tarifaço, Trump ameaçou aplicar tarifas de 10% a países do BRICS e se posicionou contra a criação de novas moedas ou arranjos que substituam o dólar — prioridade do Brasil no grupo. Segundo o professor Jorge Ferreira, a expansão do PIX Internacional também confronta o papel do sistema SWIFT, crucial nas transferências globais e no cumprimento de sanções dos EUA e da União Europeia.
PIX como vitrine e ativo geopolítico
Pedro Henrique Ramos, diretor-executivo e fundador do RegLab, avalia que a principal queixa norte-americana é a percepção de favorecimento estatal a uma infraestrutura doméstica — com impacto sobre empresas privadas dos EUA. Quando o regulador opera um sistema bem-sucedido, como o BC com o PIX, “é natural que surja uma pressão internacional” nesse ambiente competitivo. Para Ramos, o sucesso massivo do PIX dá ao Brasil poder de pauta: “É um grande modelo a ser seguido em termos de infraestrutura pública digital de pagamentos.” Diversos países estudam seu funcionamento, e a adoção de infraestruturas públicas de baixo custo por economias emergentes tem sido instrumento de inclusão financeira e de redução da dependência de redes atreladas ao dólar.
Precedentes e padrões internacionais
Os EUA têm histórico de contestar políticas que favorecem infraestruturas domésticas em países como Indonésia, Índia e China (no caso, com a UnionPay). Ao impor tarifas de 32% sobre produtos indonésios no ano passado, Washington alegou “prática comercial injusta” com impacto em empresas como Visa, Mastercard e Amex. Esse pano de fundo ajuda a explicar a ofensiva atual.
Zelle e FedNow: por que não decolaram como o PIX
Os EUA contam com sistemas como o Zelle (criado por grandes bancos, com eventuais taxas conforme a instituição) e o FedNow, do Federal Reserve, que permite cobrança de tarifas pelos bancos — geralmente não repassadas ao consumidor final. Ainda assim, não replicaram o engajamento do PIX. Segundo Ramos, a adesão ao FedNow foi opcional e não contou com a participação de grandes bancos — fator que ajuda a explicar sua tração limitada. A leitura no mercado é que desenho regulatório, interoperabilidade obrigatória e política de preços foram decisivos para a escala do PIX.
Big techs, STF e o ambiente regulatório no Brasil
O debate sobre pagamentos também cruza a disputa com big techs. Em 2020, antes do PIX, BC e Cade suspenderam a função de pagamentos do WhatsApp para avaliar riscos e concorrência. Em 2023, o BC autorizou pagamentos com cartões pelo aplicativo; em 2024, a empresa descontinuou transferências com débito, priorizando operações via PIX. Paralelamente, o STF formou maioria, em 2025, para responsabilizar redes sociais por conteúdo de usuários — decisão que encontrou resistência de Google e Meta. O conflito mais amplo entre plataformas e regulação no Brasil é citado por especialistas como componente adicional à pressão de Trump sobre temas digitais e de pagamentos.
Dimensão econômica: escala sem precedentes
O PIX movimentou R$ 26,4 trilhões em 2024, marco que consolida sua relevância doméstica e o transforma em vitrine internacional. Para empresas, o custo inferior aos arranjos tradicionais altera estruturas de pricing e margens; para consumidores, a gratuidade e a ubiquidade já remodelaram hábitos de pagamento e transferência.
O que esperar do encontro
Na avaliação do Dado Capital, a conversa entre Lula e Trump tende a ser menos sobre a segurança ou eficiência técnica do PIX — amplamente reconhecidas — e mais sobre competição, neutralidade de mercado e implicações geopolíticas do PIX Internacional e do BRICS. O Brasil deve defender a soberania regulatória e o caráter público do arranjo, enfatizando benefícios ao comércio, à inclusão financeira e à inovação. Os EUA, por sua vez, devem insistir em “condições de jogo” que evitem desvantagens para empresas americanas e em salvaguardas quanto ao papel do dólar e a redes globais como o SWIFT. Independentemente do resultado imediato, o PIX já se consolidou como ativo de soft power brasileiro — e sua evolução internacional será um dos vetores mais sensíveis da agenda econômica e diplomática do país nos próximos meses.


