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Como queda da 4ª maior araucária do Brasil pode facilitar preservação das gigantes da espécie

Caçador (SC) — A queda do “Pinheirão”, araucária de 44 metros localizada na Estação Experimental da Embrapa em Caçador, no Meio-Oeste catarinense, transformou uma perda simbólica em oportunidade científica rara. O exemplar, considerado o quarto maior da espécie documentado no Brasil, tombou nas últimas semanas — o último registro em pé é de novembro de 2025 — e, a partir de agora, permitirá a coleta de material genético para clonagem e a estimativa precisa de sua idade, antes inviável devido ao tronco oco. Para uma espécie criticamente ameaçada de extinção, cada avanço técnico conta.

Queda vira janela de pesquisa

Segundo a Embrapa Florestas, a análise imediata após a queda identificou brotações viáveis para resgate do material genético. “O ideal é que a coleta deste tipo de material seja feita de cinco a dez dias após a queda. No entanto, a equipe observou brotações ainda viáveis”, afirmou o pesquisador Ivar Wendling. Com a árvore em pé, a coleta era praticamente impossível: as brotações de interesse se concentravam na copa e o risco de escalada era elevado, agravado pela fragilidade de um tronco oco.

Idade, enfim, mensurável

A derrubada natural também abre caminho para determinar a idade do “Pinheirão”. Pesquisadores devem coletar discos do fuste cerca de cinco metros acima da base, em região onde a madeira permanece íntegra. Ao longo dos anos, a oquidade do tronco impedia métodos confiáveis de datação. “Devido à fragilidade observada no tronco (oco), optou-se por não se proceder a nenhuma investigação para determinar sua idade, mas certamente esta árvore serviu de inspiração para muitos de nossos trabalhos”, registrou a pesquisadora Maria Augusta Doetzer Rosot.

Por que as gigantes importam

A araucária-de-angustifólia (Araucaria angustifolia) tem altura média entre 25 e 30 metros, o que torna espécimes acima de 40 metros particularmente valiosos para a ciência. O Sul do Brasil é berço da espécie, e Santa Catarina abriga outros exemplares notáveis — como uma araucária de 42 metros em São Joaquim, cuja idade estimada varia de 600 a 900 anos, segundo reportagens locais. Além do apelo cultural e paisagístico, árvores gigantes são reservatórios de informação genética útil à conservação, ao manejo florestal e à restauração ecológica.

Contexto de conservação

A araucária é classificada como criticamente ameaçada na Lista Vermelha da IUCN. Estudos compilados na literatura científica indicam que a espécie perdeu a maior parte de sua distribuição original — estimativas apontam redução em torno de 97% de sua área histórica de ocorrência, sobretudo por pressão madeireira antiga, conversão de uso do solo e fragmentação de habitats. No ciclo ecológico, a espécie sustenta cadeias tróficas e interações-chave, como a dispersão de sementes por aves nativas (caso da gralha-azul), o que reforça a urgência de preservar linhagens genéticas resilientes.

O que vem agora

A equipe da Embrapa dará sequência ao resgate clonal das brotações do “Pinheirão” e à amostragem de discos para datação. As informações obtidas devem embasar bancos genéticos, protocolos de clonagem e estratégias de conservação voltadas às araucárias gigantes — um segmento estratégico dentro do esforço para manter diversidade genética e traços adaptativos desejáveis em um clima em mudança.

Análise Dado Capital

Na prática, a queda do “Pinheirão” comprova a máxima atribuída a Lavoisier — nada se perde, tudo se transforma — ao converter a perda de um monumento natural em ganho de conhecimento aplicável. É um avanço técnico com efeito multiplicador: a clonagem de uma matriz excepcional pode apoiar programas de conservação, restauração e pesquisa de longo prazo. Para Santa Catarina e para o bioma Araucária, onde remanescentes florestais valiosos sobrevivem sob pressão, transformar eventos fortuitos em ativos científicos é, mais do que oportuno, imprescindível.

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