A urna eletrônica completa 30 anos nesta semana. Em 13 de maio de 1996, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) enviou aos estados as primeiras máquinas do voto informatizado, marco que redefiniu o processo eleitoral brasileiro ao reduzir fraudes, acelerar a apuração e elevar a confiança do eleitor. Concebida entre Brasília (DF) e São Paulo (SP), a solução teve seu embrião em São José dos Campos, polo tecnológico que reuniu engenheiros e pesquisadores do Inpe e do então CTA/IEAv — um grupo apelidado de “ninjas” — para desenhar um sistema robusto e antifraude. Quase três décadas depois, a tecnologia segue em evolução, submetida a testes periódicos de segurança, e será usada pela 16ª vez nas eleições de 2026.
De uma conversa na quadra ao projeto em 16 meses
A ideia ganhou corpo no fim dos anos 1980 e início dos 1990, mas decolou no fim de 1994. Em entrevista ao g1, o ex-ministro Carlos Velloso relatou que a semente da urna surgiu numa conversa com Paulo Camarão, então superintendente do Serpro no TSE, durante uma partida de tênis em Brasília, em dezembro de 1994. Ao assumir a presidência do TSE, Velloso nomeou Camarão secretário de Informática e criou uma comissão com cinco sub-relatorias: Código Eleitoral, Reforma Partidária, Sistemas Eleitorais, Financiamento de Campanhas e Informatização do Voto. Entre a conversa e a instalação das comissões, foram cerca de quatro meses; da comissão até a primeira urna entregue, mais 12 meses. No total, 16 meses entre a ideia e a execução.
Os ‘ninjas’ da engenharia nacional
Para transformar a concepção em uma máquina segura e nacional, o TSE buscou referências de excelência: Inpe e CTA/IEAv, em São José dos Campos. Os “ninjas” que desenvolveram a urna foram Paulo Nakaya, Mauro Hashioka e Antônio Ésio “Toné” Salgado (Inpe), Oswaldo Catsumi (IEAv) e Giuseppe Janino, sob a liderança de Paulo Camarão. “Coordenar uma equipe eclética […] não foi tarefa muito fácil”, recordou Camarão, destacando perfis de hardware, software, segurança e logística unidos por um objetivo comum: garantir eleições seguras. Para Toné, o grande desafio era criar um produto robusto e seguro — preocupação que norteou todas as decisões técnicas desde o começo.
Da UE96 às versões atuais
O primeiro modelo, a UE96, tinha teclado numérico semelhante ao de um telefone, 2 MB de memória e dois disquetes. Em 1996, foi utilizada por cerca de 30% do eleitorado. Ao longo dos anos, as urnas evoluíram com a tecnologia — saindo de disquetes para processadores modernos —, mas preservaram princípios de segurança. “Não dá para fraudar uma urna eletrônica. Se eu mexer na urna, eu a descaracterizo, e ela gera dados incompatíveis”, explicou Toné, ressaltando que alterações indevidas rompem cadeias de integridade e inviabilizam a extração legítima de dados.
Segurança: camadas, testes e governança
A informatização do voto inibiu práticas comuns do passado, como fraudes na contagem manual e manipulações com cédulas de papel. “Era muito comum existirem notícias de fraudes”, lembrou o cientista político José Maurício Cardoso do Rego, da Unitau. Segundo ele, a urna ajudou no amadurecimento político da sociedade ao trazer impessoalidade e objetividade ao processo eleitoral.
Na arquitetura atual, as urnas só funcionam com softwares oficiais, desenvolvidos pela Justiça Eleitoral, assinados digitalmente e lacrados em cerimônia pública um mês antes do pleito. Entre os mecanismos, estão o Registro Digital do Voto (RDV), camadas de criptografia e hardwares de segurança. Um ano antes da disputa, o TSE realiza o Teste Público de Segurança (TPS) — o “Teste da Urna” —, com simulações de ataques reais aos sistemas de votação, apuração e totalização. Na edição mais recente, 15 grupos com 27 investigadores participaram; para 2026, a etapa de confirmação está prevista para acontecer entre 13 e 15 de maio. “As vulnerabilidades sempre foram avaliadas de forma prioritária”, disse Oswaldo Catsumi, explicando que riscos tecnológicos e procedimentais são mapeados a cada eleição para orientar defesas.
Impacto e mensagens dos pioneiros
Para Velloso, a informatização chegou para acabar com as fraudes. Ele descreve um processo contínuo de fortalecimento: à medida que ameaças eram pensadas ou testadas pela comunidade técnica, contramedidas eram adotadas — uma “corrida de gato e rato” permanente. O ex-presidente do TSE critica pedidos de retorno ao voto em papel, sublinhando que a urna torna mais legítimas as eleições e, por consequência, a democracia representativa. Paulo Camarão celebrou a obra coletiva: “Sob a batuta amiga, porém severa, do Ministro Carlos Velloso […] uma ideia se concretizou como projeto de sucesso até os dias de hoje e garantidamente por ainda muitos anos”.
Brasil no mapa da votação eletrônica
Além do Brasil, ao menos 33 países já usaram alguma forma de votação eletrônica — do uso integral de urnas a modelos híbridos com papel, conforme a legislação local. A Índia, que promove a maior eleição do mundo, é um dos exemplos. Mesmo assim, os arranjos e maturidade de cada país variam, e o caso brasileiro se distingue pela escala e pela governança centrada na Justiça Eleitoral.
Desafios e próximos passos
Catsumi vê espaço para “aprimorar e melhorar cada vez mais” a urna, mantendo o “espírito de avanço”. Essa visão ecoa o próprio ciclo de segurança do TSE, que antecipa vulnerabilidades e atualiza requisitos. Para 2026, além do TPS e da lacração pública, o parque de urnas deverá seguir as mesmas diretrizes de integridade, com auditorias, conferências e fiscalização social.
Análise Dado Capital
À luz de três décadas de uso contínuo, nosso entendimento é que a urna eletrônica brasileira constitui um raro caso de política pública tecnológica bem-sucedida, sustentada por engenharia nacional, governança institucional e controle social. O histórico de camadas de segurança, testes públicos e respostas rápidas a achados técnicos fortalece a confiança e reduz o espaço para narrativas desinformativas. O desafio adiante é de transparência e comunicação — explicar como o sistema funciona, de forma simples e verificável — enquanto se mantém o ciclo de melhoria contínua. A experiência acumulada indica que os fundamentos estão sólidos; cabe preservá-los com rigor e abertura.
Encerramento
Trinta anos após as primeiras UE96 saírem do TSE rumo aos estados, a urna eletrônica permanece como um dos instrumentos mais importantes da democracia brasileira — orgulho para seus desenvolvedores e para a Justiça Eleitoral. Em 2026, quando for às urnas pela 16ª vez, o Brasil testará de novo uma infraestrutura que resistiu a ataques por três décadas e que segue evoluindo. Se o passado recente é guia, a combinação de técnica, auditoria e transparência continuará sendo a melhor garantia de eleições seguras e confiáveis.


