O acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia começa a ser aplicado provisoriamente nesta sexta-feira (1º), após mais de duas décadas de negociações. Na largada, mais de 80% das exportações brasileiras para a UE passam a ter tarifa zerada, abrangendo mais de 5 mil produtos, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). O impacto macroeconômico, porém, tende a ser moderado — com alta estimada de 0,3% a 0,5% do PIB até 2040 — e distribuído de forma desigual entre setores e regiões, com efeitos mais visíveis no comércio exterior e em investimentos.
O que muda já na abertura do mercado
- De acordo com a CNI, mais de 80% dos produtos enviados pelo Brasil ao bloco europeu passam a entrar sem tarifa já nesta etapa inicial. No recorte detalhado pela entidade, 2.932 produtos brasileiros terão tarifa zerada na entrada em vigor — cerca de 93% deles são bens industriais.
- Em máquinas e equipamentos, quase 96% das exportações brasileiras para a Europa ficam isentas de tarifa, incluindo compressores, bombas industriais e peças mecânicas. A eliminação de tarifas reduz custos e melhora a competitividade frente a concorrentes de países sem acordo com a UE.
- Ao longo da implementação, a liberalização se expande. Em linha com o desenho do tratado, a redução tarifária é gradual e alcança a maior parte do fluxo comercial entre os blocos. Segundo a página EU–Mercosur Partnership Agreement na Wikipedia, a regra geral prevê a eliminação de tarifas para aproximadamente 91% a 92% do comércio ao longo de até 15 anos.
Quem ganha
- Agronegócio exportador: é o beneficiário mais imediato. Apesar de o acesso europeu seguir limitado por cotas em itens sensíveis (como carne bovina e açúcar), especialistas apontam que os volumes autorizados representam avanço em relação ao comércio atual, o que tende a impulsionar vendas. Os efeitos devem se concentrar no Centro-Oeste (grãos e proteína animal) e em parte do Sul (agroindústria exportadora).
- Indústria competitiva e voltada à exportação: com 93% dos itens industriais abrangidos na fase inicial, empresas com produto escalável, qualidade e marca já estabelecidas na UE tendem a capturar ganhos rápidos.
- Cadeias que usam insumos europeus: hoje, tarifas que chegam a 35% encarecem máquinas, componentes e produtos químicos importados da União Europeia. A eliminação progressiva desses tributos pode reduzir custos de produção e aumentar eficiência, inclusive no mercado doméstico — desde que haja investimento, modernização e ambiente de negócios mais favorável.
Quem perde (ou enfrenta mais pressão)
- Setores industriais menos competitivos, sobretudo os focados no mercado interno e com menor capacidade de inovação, devem encarar concorrência crescente de bens europeus de maior valor agregado. Mesmo com prazos longos para corte tarifário (em alguns casos de 15 a 18 anos), o risco central não é uma onda abrupta de fechamentos, mas a perda gradual de participação de mercado — com potencial de impacto mais forte no Sudeste, principal polo industrial do país.
- Agricultura familiar e pequenos produtores, em nichos como queijos, vinhos e produtos artesanais, veem o acordo com cautela. Embora o tratado proteja indicações geográficas brasileiras, a competição com itens europeus — muitas vezes subsidiados e produzidos em escala — pode dificultar a permanência no mercado doméstico. Para esses segmentos, a professora Regiane Bressan (Unifesp) disse ao g1 que a adaptação rápida, o acesso a crédito, certificações e políticas públicas de apoio serão decisivos.
PIB, comércio e investimentos: onde está o impulso
- Estimativas do governo apontam impacto positivo, porém limitado, entre 0,3% e 0,5% do PIB até 2040, com efeitos concentrados em atividades ligadas ao comércio exterior e à atração de investimentos. Em outras palavras: o ganho macro não é explosivo, mas a abertura tende a reordenar cadeias produtivas, cortar custos e estimular modernização — o que pode alavancar produtividade em empresas preparadas para competir.
Contexto, cronograma e incertezas
- O entendimento político do acordo foi anunciado em 2019, após cerca de 20 anos de tratativas. Segundo a página EU–Mercosur Partnership Agreement (Wikipedia), a liberalização se dará de forma escalonada, com a maior parte das tarifas eliminada ao longo de até 15 anos.
- A aplicação agora é provisória; a ratificação completa ainda depende de trâmites nos parlamentos de ambos os blocos. Há também discussões na União Europeia sobre salvaguardas e compatibilidade jurídico-regulatória — ponto que pode influenciar prazos e desenho de implementação em alguns capítulos.
Opinião Dado Capital
O acordo inaugura uma janela estratégica para o Brasil aumentar inserção em cadeias globais, reduzir custos de capital e acelerar difusão tecnológica. Mas, à luz dos dados da CNI e das projeções oficiais de PIB, os maiores ganhos virão onde já há competitividade: agronegócio exportador, manufaturas com escala e empresas que conseguem transformar o barateamento de insumos europeus em produtividade. Sem uma agenda robusta de política industrial horizontal — crédito, qualificação, certificações, facilitação de comércio, infraestrutura logística e estímulos à inovação — a abertura pode aprofundar assimetrias regionais e setoriais, pressionando a indústria de menor intensidade tecnológica e pequenos produtores. O desafio é converter a tarifa zero em produtividade sustentável, e isso depende de execução doméstica.
O que acompanhar a partir de agora
- Cronogramas setoriais de desgravação tarifária e regras de origem.
- Exigências sanitárias, técnicas e de sustentabilidade na UE, que podem virar barreiras não tarifárias para quem não estiver certificado.
- Medidas de apoio para MPMEs e agricultura familiar (crédito, assistência técnica e certificações).
- Movimentos de investimento em modernização industrial no Brasil, em especial de cadeias que dependem de insumos europeus.
Fontes: CNI; g1; EU–Mercosur Partnership Agreement (Wikipedia).


