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Inteligência Artificial já reduz emprego entre jovens no Brasil e ameaça formação profissional

A presença acelerada da inteligência artificial (IA) já tem efeito mensurável sobre a inserção dos jovens no mercado de trabalho brasileiro. Estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) aponta que profissionais de 18 a 29 anos empregados em setores mais expostos à tecnologia têm quase 5% menos chances de conseguir um posto do que antes da difusão das ferramentas de IA generativa. A tendência poupa, por ora, trabalhadores mais experientes, mas acende um alerta para a erosão da “escada” de formação profissional — um risco também observado em países desenvolvidos.

O que diz o estudo da FGV Ibre

  • A análise do FGV Ibre, baseada em microdados da PNAD Contínua do IBGE — a principal pesquisa domiciliar do país, usada para monitorar emprego e renda — identifica maior vulnerabilidade entre jovens em serviços de informação, comunicação e atividades financeiras. Nesses segmentos, tarefas típicas de início de carreira, como montar planilhas, elaborar gráficos e redigir resumos, estão entre as mais facilmente automatizáveis.
  • “Eles estão, justamente, em trabalhos que trabalhadores mais seniores usam para tomar as suas decisões. Você precisa de um jovem para montar uma tabela, um gráfico, escrever um resumo”, explica Daniel Duque, pesquisador-associado do Ibre.
  • Já as faixas de 30 a 44 anos e de 45 a 59 anos foram pouco ou nada afetadas até aqui, segundo a leitura dos dados. Cargos sêniores, com maior responsabilidade, análise e tomada de decisão, mesmo em áreas expostas, mostram-se menos suscetíveis à substituição.
  • O impacto começou a ganhar corpo após o lançamento do ChatGPT no fim de 2022 e se aprofundou em 2024 e 2025, com a chegada de outras plataformas, como Claude e Gemini. “A adoção da IA está sendo mais rápida do que a de várias outras tecnologias no passado (…), e é por isso que o efeito no mercado de trabalho está sendo muito rápido”, avalia Duque.

Tendência global e sinais convergentes

  • Em economias avançadas, onde a automação corre à frente, pesquisadores do Stanford Digital Economy Lab relataram em novembro de 2025 quedas relevantes na contratação de jovens desenvolvedores — em alguns casos, até 20% — e recuo médio de 16% na empregabilidade em setores mais expostos à IA.
  • Na Europa, estudo do Insee (o instituto nacional de estatística da França) publicado em março apontou dinâmica semelhante: empresas têm delegado à IA partes do trabalho antes executadas por “júniores”, como tratamento de dados e redação.
  • A ANDRH, associação francesa de recursos humanos, notou ainda redução no número de estagiários, acompanhada de incentivo interno ao maior uso de IA pelos quadros atuais. O risco, adverte o setor, é comprometer a formação de competências dos futuros sêniores.

Brasil: substituição x complementaridade

  • Duque ressalta que o Brasil está “um pouco menos exposto” que países desenvolvidos, mas enfrenta um desafio específico: entre as ocupações expostas, prevalece a exposição por substituição, não por complementaridade. Em outras palavras, falta qualificação para que o trabalhador use a IA como alavanca — e não como substituto.
  • A raiz do problema é a baixa proficiência tecnológica média. Ser complementar à IA exige domínio de ferramentas digitais, dados e processos que permitam ao profissional focar em julgamento, supervisão e integração — e não apenas em tarefas repetitivas.

A ameaça à “escada” de formação

  • A retração de vagas de entrada e de estágios desmonta o principal mecanismo de aprendizado prático e de socialização profissional. “Se você tira os trabalhadores do mercado nesse momento mais cedo da carreira, eles não vão formar experiências, não vão ter uma liderança em quem se espelhar depois e, com isso, não vão aprender a tomar as decisões que os sêniores estão tomando”, alerta Duque.
  • Em um cenário extremo, admite o pesquisador, modelos cada vez melhores poderiam assumir decisões hoje reservadas a humanos. Até lá, porém, o gargalo é claro: sem percorrer o ciclo de tarefas júnior → supervisão → decisão, as próximas gerações chegam menos preparadas aos postos de maior responsabilidade.

Análise Dado Capital

  • Os resultados do FGV Ibre, ancorados na PNAD Contínua do IBGE, são consistentes com a evidência internacional recente: a IA atinge primeiro funções de menor complexidade cognitiva dentro de ocupações de alta exposição, comprimindo a base da pirâmide ocupacional. A curto prazo, empresas colhem ganhos de produtividade; a médio e longo prazos, correm o risco de empobrecer a formação de capital humano e enfrentar escassez de talentos sêniores.
  • A resposta deveria combinar três frentes:
    1. massificação de habilidades digitais e de IA (da educação básica ao ensino técnico e superior),
    2. desenho de trilhas profissionais que preservem experiências de entrada, com tutoria e avaliação humana, e
    3. incentivos para a adoção de IA em arranjos de complementaridade, onde o trabalhador amplia seu escopo de decisão e qualidade, em vez de ser simplesmente substituído.
  • Democratisar o acesso à IA — tema destacado por Duque — não é apenas uma questão de equidade; é um imperativo de produtividade. Sem inclusão tecnológica, a difusão dos ganhos ficará concentrada e poderá ampliar desigualdades de renda e de oportunidades.

Encerramento

A IA já está remodelando o mercado de trabalho brasileiro, sobretudo para os jovens. Os dados do FGV Ibre e as evidências de Estados Unidos e Europa convergem para o mesmo diagnóstico: a janela de ajuste é curta e a velocidade da adoção tecnológica é inédita. O desafio, agora, é transformar a IA em aliada da formação profissional — e não em atalho para cortar a base da experiência. Monitorar indicadores por idade e setor, requalificar em massa e proteger trilhas de aprendizagem serão decisivos para distribuir os ganhos de produtividade e evitar um “apagão” de competências no futuro próximo.

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