Em alta na avaliação global de liberdade de imprensa, o Brasil subiu cinco posições e alcançou o 52º lugar no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa, superando os Estados Unidos, que caíram para a 64ª posição. Os dados são do Relatórios Sem Fronteiras (RSF), divulgados nesta quinta-feira (30). É a primeira vez que o país ultrapassa os norte-americanos no levantamento da ONG, que analisa 180 países com base em indicadores políticos, legais, econômicos, socioculturais e de segurança.
Brasil em trajetória de recuperação
Segundo a RSF, o Brasil tem avançado na contramão da tendência regional, especialmente na América Latina, onde diversos países “mergulharam em uma espiral de violência e repressão”. Desde 2022, o Brasil recuperou 58 colocações no ranking; no ano passado, estava em 63º. Em 2021, viveu seu pior momento, na 111ª posição, entrando na “zona vermelha” do índice, classificada como “situação difícil”. Hoje, embora ainda rotulado como “situação sensível”, o país ocupa um patamar melhor.
A melhora reflete, de acordo com a metodologia da RSF, um ambiente um pouco menos hostil à atividade jornalística e sinais de recomposição institucional. Ainda assim, persistem riscos estruturais, como violência contra profissionais de imprensa em coberturas locais, assédio e processos judiciais como forma de pressão, dependência econômica em mercados concentrados e vulnerabilidade a campanhas de desinformação.
Estados Unidos em queda
Os Estados Unidos registraram queda pelo quarto ano seguido. Em 2022, ocupavam a 42ª colocação, em “situação relativamente boa”; em 2023, caíram a 57º e, agora, recuam para 64º. Segundo a RSF, o movimento descendente decorre de dificuldades econômicas enfrentadas por jornalistas, somadas a uma crise de confiança do público na imprensa. O relatório afirma que essa deterioração foi acentuada pelo uso da máquina pública pelo governo de Donald Trump contra jornalistas e veículos de comunicação e que, “desde seu retorno ao poder, os jornalistas também passaram a ser alvo durante manifestações, o que reflete uma deterioração mais ampla que constitui uma das crises mais graves para a liberdade de imprensa na história moderna dos Estados Unidos”.
Panorama global: pior nível em 25 anos
A RSF destaca que o mundo viveu, neste ano, o nível mais baixo de liberdade de imprensa em 25 anos. Mais da metade dos países está em “situação difícil” ou “muito grave”. Em 2002, 20% da população mundial vivia em países com situação considerada “boa”; hoje, apenas 1% está em nações com ambiente favorável à imprensa. Parte dessa deterioração se deve a mudanças em políticas de segurança nacional que restringem coberturas de interesse público e corroem o direito à informação.
América Latina sob pressão
Mesmo sem conflitos armados generalizados, a região caiu no ranking em razão da violência contra jornalistas, com destaque para a ação do crime organizado e ambientes políticos locais hostis. Nesse contexto, a trajetória de alta do Brasil contrasta com a tendência regional, mas não elimina a necessidade de proteção efetiva a repórteres, especialmente fora dos grandes centros e em pautas sensíveis, como corrupção, meio ambiente e crime organizado.
Metodologia do índice
Criado em 2002, o Índice Mundial de Liberdade de Imprensa da RSF avalia 180 países em cinco dimensões: contexto político, marco legal, contexto econômico, contexto sociocultural e segurança. A pontuação combina questionários qualitativos com dados quantitativos sobre incidentes que afetam jornalistas, redações e a circulação de informações (fonte: RSF e síntese metodológica disponível em referências de domínio público).
Líderes e lanternas
A Noruega manteve a liderança do ranking, seguida por Países Baixos, Estônia, Dinamarca e Suécia. Apenas sete países foram classificados em “boa situação”. Na outra ponta, regimes autoritários concentram as piores posições: a Eritreia ocupa novamente o último lugar, seguida por Coreia do Norte, China, Irã e Arábia Saudita. Guerras e conflitos agravaram o cenário em países como Israel e Sudão, em especial pelo aumento de riscos letais a profissionais de imprensa.
Análise Dado Capital
A ultrapassagem dos EUA pelo Brasil é um marco simbólico relevante e evidencia uma inflexão positiva no ambiente doméstico — sobretudo após o fundo do poço em 2021. Mas o avanço ainda é frágil: a classificação de “situação sensível” indica que a segurança dos jornalistas e a sustentabilidade econômica do setor seguem como vulnerabilidades centrais. Para consolidar ganhos e atrair investimentos em um ecossistema de informação mais saudável, o país precisa reduzir a impunidade em casos de violência, aprimorar mecanismos de proteção a comunicadores, dar previsibilidade regulatória e fortalecer a transparência pública.
Encerramento
O relatório da RSF reforça que a liberdade de imprensa continua sob pressão no mundo e na América Latina. No caso brasileiro, a melhora é significativa e deve ser capitalizada por políticas consistentes de proteção e por um compromisso permanente com a transparência e o pluralismo. Ultrapassar os Estados Unidos é um sinal de avanço — não um ponto de chegada.


