Dado Capital
O excesso de velocidade segue no centro das autuações de trânsito no Brasil. Levantamentos da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) mostram que essa infração respondeu por quase metade de todas as multas aplicadas no país nos últimos anos. Em 2025, foram 100.036.053 infrações registradas; 45.839.641 foram por velocidade acima do permitido, o equivalente a 45,82% do total. O padrão se repete em 2024 (47,11%), 2023 (45,83%) e 2022 (45,53%), evidenciando uma recorrência que combina comportamento ao volante e fiscalização eletrônica em larga escala.
Como a fiscalização atua
- Grande parte das autuações por excesso de velocidade é registrada por radares fixos e móveis, instalados em vias urbanas e rodovias para verificar o cumprimento dos limites estabelecidos.
- Especialistas ouvidos por órgãos de segurança viária avaliam que a prevalência do excesso de velocidade decorre de fatores comportamentais — como sensação de confiança e pressa — somados à ampla cobertura de monitoramento eletrônico.
Os números por ano (Senatran)
- 2025: 100.036.053 infrações no total; 45.839.641 por velocidade (45,82%).
- 2024: 86.480.060 no total; 40.742.079 por velocidade (47,11%).
- 2023: 78.040.833 no total; 35.768.962 por velocidade (45,83%).
- 2022: 71.801.605 no total; 32.691.766 por velocidade (45,53%).
Por que a velocidade importa
- A velocidade do veículo reduz a margem de reação do motorista e aumenta a distância necessária para a parada completa. Em termos práticos, quanto mais rápido se trafega, maior o espaço percorrido até a frenagem total — e menor a chance de evitar colisões.
- Em condições de chuva, o risco cresce. “Essa distância de frenagem pode variar em 70% em relação a uma pista seca”, afirma o tenente Eduardo Filho, da Polícia Militar Rodoviária.
- Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Ceará (UFC) apontam que a probabilidade de um pedestre sobreviver a um atropelamento cai drasticamente com a velocidade: é de cerca de 70% a 50 km/h e de 15% a 80 km/h.
Impacto humano e de saúde
- De acordo com a médica fisiatra Alice Conceição Rosa Ramos, da AACD, 55% dos pacientes com lesão medular atendidos pela instituição foram vítimas de acidentes de trânsito — um dado que reforça o peso dos traumas viários na rede de reabilitação.
- A jovem estudante Emily Nathieli foi atropelada por um veículo em alta velocidade quando seguia para sua primeira entrevista de emprego, em 2020. Desde então, convive com perdas de memória e mantém tratamento na AACD. “Só queria ter a minha vida de volta. Por que essa velocidade, por que fazer isso?”, desabafa.
O que diz a lei: penalidades por excesso de velocidade
O Código de Trânsito Brasileiro (CTB), no artigo 218, estabelece três faixas de infração por velocidade acima do limite, com punições progressivas:
- Até 20% acima da velocidade permitida (Infração 745-5-0): infração média; multa de R$ 130,16; 4 pontos na CNH.
- Mais de 20% e até 50% acima (Infração 746-3-0): infração grave; multa de R$ 195,23; 5 pontos na CNH.
- Acima de 50% do limite (Infração 747-1-0): infração gravíssima; multa multiplicada por 3 (R$ 880,41), 7 pontos na CNH e suspensão do direito de dirigir, conforme o CTB.
Análise Dado Capital
Os dados oficiais indicam um quadro persistente: em torno de 4 em cada 10 autuações decorrem do excesso de velocidade, patamar que se mantém estável ano após ano. Na avaliação deste repórter, o Brasil colhe os resultados de investimentos consistentes em fiscalização eletrônica, mas ainda convive com uma cultura de risco ao volante. A evidência científica sobre letalidade em velocidades elevadas, aliada ao impacto assistencial observado por instituições como a AACD, aponta que reduzir a pressa no trânsito é medida de saúde pública, não apenas de segurança viária. O caminho mais promissor — e defendido por especialistas — combina fiscalização, educação contínua e limites de velocidade bem calibrados ao desenho das vias. Respeitar o limite é simples, custa menos do que qualquer multa e, sobretudo, salva vidas.
Metodologia e fontes
- Números de autuações por ano e participação do excesso de velocidade: Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran).
- Contexto técnico sobre aumento de risco em pista molhada: Polícia Militar Rodoviária (Tenente Eduardo Filho).
- Probabilidade de sobrevivência de pedestres por velocidade de impacto: pesquisadores da USP e UFC.
- Impacto assistencial: AACD (médica fisiatra Alice Conceição Rosa Ramos).

