A Organização Mundial da Saúde (OMS) atualizou, em 15 de maio de 2026, seu balanço global de mortalidade pela Covid-19 entre 2020 e 2023 e apontou 22,1 milhões de mortes no mundo, número três vezes maior que os cerca de 7 milhões oficialmente reportados por países. O salto se explica por subnotificação e por mortes indiretas associadas ao colapso dos sistemas de saúde. No caso brasileiro, a revisão implica que o total real de vidas perdidas deve superar, e em muito, as mais de 700 mil mortes confirmadas nos registros oficiais.
O que diz o novo levantamento da OMS
- O relatório Estatísticas Mundiais de Saúde 2026, apresentado pela OMS, consolida estimativas de mortalidade que incluem tanto óbitos diretamente causados pelo vírus quanto mortes indiretas, ocorridas por falta de acesso oportuno a serviços e tratamentos em meio ao estresse sobre o sistema de saúde.
- A diferença entre as 22,1 milhões de mortes estimadas e os 7 milhões reportados decorre principalmente de:
- Subnotificação de casos e óbitos, especialmente nas primeiras ondas, quando a testagem era escassa e os sistemas de registro foram sobrecarregados.
- Efeitos indiretos da crise, quando pacientes com outras condições graves deixaram de receber cuidado adequado em razão da superlotação hospitalar e da interrupção de serviços.
Impacto para o Brasil: para além dos 700 mil
- O Brasil registra oficialmente mais de 700 mil mortes por Covid-19. À luz da revisão da OMS, a cifra real é provavelmente bem maior, refletindo:
- Subregistro de óbitos diretamente atribuídos ao coronavírus, sobretudo em localidades com menor capacidade de testagem e vigilância;
- Mortes indiretas relacionadas à sobrecarga do sistema de saúde durante os picos da pandemia, quando o acesso a consultas, cirurgias e terapias foi dificultado.
- Esses fatores ajudam a explicar a discrepância entre as notificações administrativas e o impacto sanitário efetivo. O relatório da OMS chama atenção para a necessidade de métodos de estimativa robustos para capturar o alcance completo da crise, algo que países com redes desiguais de atenção e vigilância epidemiológica, como o Brasil, tendem a enfrentar com maior intensidade.
Desinfodemia: quando a desinformação agrava a crise
- A pandemia sanitária veio acompanhada por uma “pandemia de desinformação”, ou desinfodemia, fenômeno descrito pela Unesco no estudo Disinfodemic – Deciphering Covid-19 Disinformation, publicado em abril de 2020. A pesquisa alertou que a desinformação sobre a Covid-19 cria confusão sobre a ciência médica, com impacto imediato sobre pessoas e sociedades inteiras, sendo mais tóxica e mortal do que a desinformação sobre outros assuntos.
- A Unesco identificou nove eixos principais de desinformação relacionados à Covid-19. Todos foram observáveis no Brasil e afetaram a prevenção, o combate à doença e o comportamento da população, minando a adesão a medidas recomendadas por autoridades sanitárias.
O papel do governo e as conclusões da CPI da Covid
- No Brasil, a desinfodemia encontrou terreno fértil. Entre 2020 e 2021, em especial, houve forte contestação pública a medidas como isolamento social, uso de máscaras, distanciamento e restrição a aglomerações — recomendações centrais da OMS à época.
- Declarações e ações do então presidente Jair Bolsonaro, amplificadas por lives e intervenções públicas, contribuíram para o descrédito de normas sanitárias. Entraram nessa pauta:
- A defesa e a propaganda de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19;
- A minimização da gravidade da doença — com a célebre referência à Covid como “gripezinha”;
- Questionamentos a dados e mudanças de critérios de divulgação, abrindo espaço para confusão informativa.
- A CPI da Covid-19, realizada no Congresso Nacional entre abril e outubro de 2021, documentou a extensão e o alcance dessas estratégias de comunicação e seus efeitos sobre a condução da resposta sanitária. As conclusões da comissão reforçaram a leitura de que a desinformação institucionalizada agravou o quadro brasileiro durante a crise.
Por que os novos números importam agora
- A atualização da OMS não é apenas um ajuste estatístico: ela recoloca o custo humano da pandemia em perspectiva e evidencia que o peso da desinformação e da descoordenação de políticas públicas foi mensurável em vidas. Para o Brasil, esse diagnóstico impõe três frentes urgentes:
- Fortalecer vigilância e transparência de dados, com padronização de registros e ampliação de capacidades locais de testagem e notificação;
- Institucionalizar uma política de comunicação de risco baseada em evidências, capaz de responder rapidamente a boatos, narrativas enganosas e campanhas coordenadas de desinformação;
- Aprimorar governança e responsabilização, aprendendo com as falhas documentadas para proteger políticas de saúde de ciclos de interferência política e misinformation.
- Na nossa avaliação, os novos números da OMS reforçam que combater a desinformação é, literalmente, política de saúde pública. Países que preservaram coerência entre ciência, comunicação e coordenação federativa mitigaram melhor o dano. Onde esse alinhamento falhou, a conta chegou mais alta.
Encerramento
A revisão da OMS, ao estimar 22,1 milhões de mortes por Covid-19 no mundo entre 2020 e 2023, impõe um acerto de contas com a dimensão real da tragédia. No Brasil, onde os registros oficiais ultrapassam 700 mil óbitos, o impacto efetivo foi maior — e parte dessa ampliação decorre de escolhas comunicacionais e políticas que favoreceram a desinformação e corroeram a adesão a medidas comprovadamente eficazes. Reconhecer esse legado não é um exercício de retrovisor: é a condição para que o país qualifique sua capacidade de resposta, preserve vidas em futuras emergências e consolide uma cultura pública que coloque ciência, transparência e responsabilidade no centro das decisões.


