O Brasil está envelhecendo sem a rede de apoio necessária para garantir autonomia, segurança e qualidade de vida à população idosa. Um levantamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), realizado em 70 municípios de todas as regiões do país, indica desafios que vão da alta prevalência de doenças crônicas ao déficit de infraestrutura urbana e de cuidados. Entre pessoas com mais de 60 anos, três em cada dez são hipertensas; 42,7% relatam medo de cair nas calçadas; cerca de 20% têm dificuldade para realizar ao menos uma atividade diária sem ajuda — o que representa, em números absolutos, aproximadamente 6,5 milhões de brasileiros com autonomia comprometida. Menos de 40% dos que têm alguma limitação recebem assistência.
Pressão da doença crônica: o caso de Maria da Salete
A trajetória de Maria da Salete, 77 anos, ilustra a dimensão do problema. Com pressão arterial descontrolada, ela já sofreu dois derrames.
“Já chegou a ponto de dar derrame, eu dei dois derrames”, lembra.
A hipertensão é uma das principais portas de entrada para complicações graves em idosos — acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca e comprometimentos funcionais — e demanda acompanhamento contínuo na atenção primária do SUS, com acesso regular a medicamentos, monitoramento e reabilitação.
Cidades pouco amigáveis: risco de quedas e mobilidade limitada
A pesquisa da Fiocruz também avaliou a estrutura das cidades, ponto-chave para envelhecer com segurança. Mais de 42,7% dos entrevistados dizem ter medo de cair nas calçadas, medo que se justifica por experiências como a de Dona Raimunda, 81 anos.
“Ela estava saindo de casa com o marido dela, só que não tem muito apoio no corpo. Aí passou um carro, ela se assustou, soltou a mão dele e acabou caindo”, relatou o cuidador.
Calçadas irregulares, falta de rampas, iluminação precária e travessias inseguras formam um ambiente hostil ao idoso, restringindo circulação, acesso a serviços e convívio social.
Cuidado insuficiente e perda de capacidade funcional
Segundo o estudo, cerca de 20% dos idosos brasileiros precisam de ajuda para atividades básicas — vestir-se, tomar banho, levantar-se ou se alimentar — e menos de 40% dos que têm alguma limitação contam com assistência. Em Belo Horizonte, um centro de acolhimento diurno mostra o grau de dependência de muitos frequentadores, que necessitam de apoio integral para tarefas simples.
“Tem que ter muito carinho, dedicação, determinação, paciência e amor”, resume a cuidadora Leyla Oliveira.
Sem uma rede estruturada de cuidados de longa duração, famílias assumem sozinhas a sobrecarga, muitas vezes sem qualificação, apoio financeiro ou descanso, o que amplia riscos para o idoso e para o cuidador.
Contexto e referências: envelhecimento ativo e cidades amigas do idoso
Os achados dialogam com recomendações internacionais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) consolidou, em 2002, o marco do Envelhecimento Ativo, defendendo ações integradas em saúde, participação e segurança ao longo do curso de vida. Em 2007, a OMS lançou o guia Global Age-Friendly Cities, que define atributos de “cidades amigas do idoso” — desde calçadas acessíveis e transporte público adaptado até serviços de saúde e suporte comunitário. No Brasil, especialistas como Alexandre Kalache, referência global na temática, vêm há anos apontando a necessidade de adaptar ambientes e políticas para uma sociedade que envelhece rapidamente. O estudo da Fiocruz evidencia que essa transformação urbana e social ainda é insuficiente no país.
O que está em jogo para o Brasil
- Saúde: condições crônicas como hipertensão exigem prevenção, diagnóstico e acompanhamento contínuos na atenção básica, com articulação à reabilitação e à saúde mental.
- Infraestrutura: padronização e manutenção de calçadas, iluminação, rampas e sinalização salvam vidas, evitam quedas e reduzem custos hospitalares.
- Cuidado de longa duração: formação e certificação de cuidadores, redes de apoio domiciliar e centros-dia desafogam famílias e melhoram resultados clínicos e sociais.
- Governança e financiamento: integrar saúde, assistência social e urbanismo numa estratégia nacional de cuidados é condição para a sustentabilidade demográfica e fiscal.
Opinião Dado Capital
Os números da Fiocruz são um alerta incontornável: o país envelhece mais rápido do que avança sua cultura do cuidado. Na avaliação do Dado Capital, a prioridade deve ser construir uma política consistente de cuidados de longa duração, com financiamento estável, metas e avaliação de resultados, ao mesmo tempo em que se acelera a adaptação urbana para reduzir quedas e ampliar mobilidade. Sem essa resposta coordenada — da atenção primária ao reabilita, da calçada acessível ao centro-dia — o Brasil continuará transferindo ao domicílio um problema público, com alto custo humano e econômico.
Encerramento
O estudo da Fiocruz revela um quadro claro: milhões de idosos já vivem com autonomia reduzida e encontram barreiras tanto nos serviços de saúde quanto nas ruas. Investir em prevenção, reabilitação, infraestrutura urbana e redes de cuidado não é apenas uma pauta humanitária; é uma decisão estratégica para a sustentabilidade do país que envelhece. O desafio está posto — e o tempo, diante da velocidade da transição demográfica, é curto.


