O governo federal anunciou nesta semana o envio ao Congresso Nacional de um projeto de lei que reduz a jornada máxima semanal de trabalho de 44 para 40 horas, sem redução salarial, e assegura dois dias de descanso remunerado. Na prática, a proposta encerra a escala 6×1 predominante em setores intensivos em mão de obra e retoma uma pauta discutida desde a Constituinte de 1987 — quando a jornada de 40 horas chegou a ser aprovada em comissão, mas acabou fixada em 44 horas na Constituição de 1988.
O que está em jogo
- O texto do Executivo propõe um meio-termo em relação a iniciativas mais ambiciosas, como a da deputada Erika Hilton (Psol-SP), que defende a semana de 36 horas com quatro dias de trabalho e três de folga. A aposta do governo é na convergência para uma escala 5×2 (cinco dias de trabalho e dois de descanso), preservando salários.
- No arranjo atual, as 44 horas costumam ser cumpridas em cinco dias de oito horas e mais um dia de quatro horas, com uma folga remunerada — o que, para a maioria, resulta em apenas um dia e meio de descanso efetivo no fim de semana.
Uma demanda de quatro décadas
- A reserva de dois dias de folga semanais não é novidade no debate brasileiro. Em junho de 1987, durante os trabalhos da Constituinte, a Comissão de Ordem Social aprovou o anteprojeto que fixava 40 horas semanais.
- O tema tinha lastro nas mobilizações sindicais do início dos anos 1980. Em 1985, metalúrgicos do ABC já haviam conquistado convenções com 44 horas nas fábricas, pavimentando a redução que seria consagrada em 1988.
- Antes disso, vigorava a jornada de 48 horas semanais, prevista desde 1943 na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o que significava trabalho integral de segunda a sábado e, na prática, apenas um dia de descanso remunerado até a promulgação da Constituição de 1988.
O embate na Constituinte
- A redução para 40 horas foi defendida por parlamentares de esquerda (PT, PCB, PC do B, PTB, PDT) e enfrentou resistência de legendas como PFL e PDS; o PMDB se dividiu.
- Entre os defensores estava o então deputado Lula, que citava experiências internacionais e rechaçava a ideia de ampliar carga horária.
- Os argumentos contrários apontavam custos às empresas, risco de inflação e desemprego. O então deputado José Serra (PMDB-SP) alertou para “efeitos extraordinariamente pervertidos” de uma redução mais acentuada.
- Houve quem propusesse ir além na direção oposta: Luís Roberto Ponte (PMDB-RS) sugeriu elevar a jornada até 52 horas semanais “até que o último dos brasileiros tivesse o que comer, onde morar e onde tratar-se”.
- Nem toda a direita foi contra: Geovani Borges (PFL-AP) apoiou a reserva do direito ao lazer e considerou justa a proposta de 40 horas.
- No desfecho, a Comissão de Sistematização levou a um meio-termo de 44 horas semanais, aprovado no Plenário. Em voto dissidente no PFL, o senador Afonso Arinos, favorável à escala 5×2, resumiu: “Já estou muito velho para votar contra o povo.”
Experiências internacionais
- Na Alemanha Ocidental, a campanha sindical por 40 horas ganhou força no pós-guerra. Em 1956, o lema “Samstags gehört Vati mir” (“No sábado, o papai pertence a mim”) sintetizou a pressão por dois dias de descanso, culminando, a partir dos anos 1960, na prática generalizada da escala 5×2 por meio de convenções coletivas.
Evidências econômicas e lições de 1988
- Um estudo publicado em 2003 na Revista Brasileira de Economia — assinado por Gustavo Gonzaga, Naércio Aquino Menezes Filho e José Márcio Camargo — examinou a redução de 48 para 44 horas após a Constituição de 1988.
- Conclusões principais: não houve piora significativa em desemprego no curto prazo; caiu a probabilidade de desligamento; e houve aumento do salário real por hora. Em 1988, quase metade dos trabalhadores já cumpria menos de 48 horas; entre 1988 e 1989, 60% dos que tinham jornadas entre 40 e 48 horas permaneceram empregados e ajustaram suas cargas para o novo teto de 40 a 44 horas.
- À época, os autores reconheceram aumento do custo do trabalho por medidas conexas (como licença-maternidade e adicional de horas extras), mas classificaram a semana de 48 horas como “excessivamente alta”.
O que muda com 40 horas
- O projeto do governo equaliza a semana laboral brasileira a uma escala 5×2, com dois dias de descanso fixos, e veda redução salarial. A medida tende a atingir de forma mais direta setores que ainda escalam 6×1, notadamente varejo, serviços contínuos e algumas atividades industriais.
- Os defensores argumentam que a redução pode abrir espaço para novas contratações, mitigar rotatividade e elevar produtividade via descanso adicional. Críticos reiteram preocupações com custos e repasses de preços.
Opinião Dado Capital
O movimento do governo por 40 horas parece politicamente mais exequível do que propostas de semana de quatro dias e, historicamente, dialoga com um consenso social inacabado desde a Constituinte. À luz da experiência de 1988 e das evidências citadas, os riscos de um choque negativo imediato no emprego parecem contidos, especialmente se a transição for bem calibrada. O desafio concreto está na adaptação setorial: atividades com operação contínua e margens apertadas podem demandar reorganização de turnos e maior investimento em gestão. A eficácia econômica da medida dependerá de implementação previsível e de como empresas e trabalhadores traduzirão o ganho de descanso em produtividade.
Próximos passos
O projeto será analisado pelo Congresso. A tramitação tende a reavivar um debate conhecido: entre a busca por competitividade empresarial e a consolidação de um padrão de descanso de dois dias que, há quase quatro décadas, figura como aspiração recorrente da sociedade e do mercado de trabalho brasileiros.


